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Hoje é Dia e Santa Clara

 

Clara de Assis (1194-1253) foi uma mulher de família nobre que, encantada com o radicalismo de Francisco (1181 ou 1182-1226), decidiu seguir seu exemplo: abandonar a vida de posses e entregar-se ao cuidado com os pobres.

Segundo relatos antigos, era um moça muito bonita e vinha sendo preparada, por sua família, para arranjar um bom casamento — que garantiria a ela uma vida de riqueza e, aos seus parentes, o pagamento de um dote excelente.

Mas, ainda adolescente, ela teria ouvido algumas pregações de Francisco e seus companheiros pelas ruas de Assis. Às escondidas, passou a apoiar o grupo, doando alimentos e ajudando-os naquela missão.

A partir de 1211, ela passou a se encontrar assiduamente com Francisco, enxergando nele um pai espiritual, um mentor. Aos 18 anos, ela decidiu sair de casa. "Tinha 18 anos quando fugiu e foi ao encontro de Francisco", narra J. Alves.

"Tornaram-se amigos. Naquele mesmo dia, Clara deixou que Francisco raspasse sua cabeça e se consagrou totalmente a Deus, para uma vida de absoluta pobreza. Além de amigo fraterno, Francisco tornou-se seu mestre e guia espiritual, seu inspirador."

O ato de raspar a cabeça significava o despojamento na mudança para a nova vida. "Clara escolheu Francisco como mestre de caminhada, um diretor espiritual", salienta Barros. "Ele disse para ela se entregar a Deus completamente."

A fuga da casa da família ocorreu, segundo os relatos antigos, pela "porta dos mortos". Trata-se de uma saída dos fundos, comuns em casarões de nobres daquele tempo, que só era utilizada para a retirada de defuntos. "Isso indica que ela tomou uma posição radical, de deixar para trás a segurança que ela tinha na vida abastada", interpreta Barros.

Seus familiares não aceitaram tranquilamente a decisão No dia seguinte tentaram resgatá-la junto aos religiosos, mas ela, abrigada dentro de uma igreja, teria se agarrado às toalhas do altar para que não fosse dali retirada.

Uma ordem feminina, com regras femininas

Acabou vivendo em diversos conventos femininos até criar a sua própria instituição. "Seguindo os passos de Francisco, ela abandonou a vida confortável e abraçou a pobreza evangélica absoluta, fundando a chamada inicialmente Ordem das Damas Pobres", pontua J. Alves. "Como Francisco de Assis, Clara arrastou atrás de si, não apenas familiares, como irmã, mãe e prima, mas também muitas jovens das famílias mais importantes de Assis, desejosas de um novo sentido para suas vidas."

"Ela e suas companheiras passaram a viver do trabalho de suas mãos e das esmolas que recebiam e distribuíam aos pobres e indigentes", afirma Alves.

Frei Lopes Neto ressalta a personalidade forte de Clara. "Em um período em que a mulher era tão colocada de lado, desprezada, ela precisa ser reconhecida", ressalta o religioso.

Ela acabou sendo a fundadora do ramo feminino da ordem franciscana, a Ordem de Santa Clara ou Ordem das Clarissas. Que se expandiu rapidamente. "Em 1228, já eram 24 os mosteiros que seguiam o carisma de Santa Clara, segundo levantamento da época", cita Barros. No ano da morte de clara, em 1253, o número havia saltado para 111.

"Depois da morte de Francisco [em 1226], Clara continuou a obra fransciscana", afirma Barros. Lopes Neto compara a importância de Clara para o fransciscanismo ao papel que teve São Paulo para a difusão do cristianismo. "Foi ela quem deu carne, sustento, brigou, batalhou e deu testemunho de vida para que a Igreja, a hierarquia e o movimento eclesial, não se esquecesse do legado de Francisco", diz.

"Sua insistência e sua força às vezes destoam da imagem feminina que às vezes o cinema nos faz ver [ao retratá-la]. Ela era uma mulher muito forte, de fibra, que sabia dizer não, sabia dizer sim. E, por isso mesmo, foi uma grande mãe, a grande sustentadora do carisma franciscano", completa Lopes Neto.

Em um gesto que parecia muito à frente de seu tempo, ela tomou para si a tarefa de escrever a "forma de vida" da ordem que havia fundado. Ou seja: o conjunto de regras que deveria nortear o dia a dia de todas aquelas que escolhessem aderir a um convento das clarissas.

"Ela entrou para a história por ter sido a primeira mulher na história da Igreja a escrever uma regra de vida, esse conjunto de diretrizes e ensinamentos para a comunidade religiosa", frisa Barros. "Foi um gesto bastante ousado, porque o primeiro esboço havia sido escrito pelo papa Gregório 9º [(1145-1241)]. Ela assumiu o trabalho e lutou até o fim da vida para que a regra fosse aprovada pela Igreja."

Isso teria ocorrido apenas em 9 de agosto de 1253. Dois dias antes de sua morte.

"Seu funeral teve a presença do papa [Inocêncio 4º (1195-1254)] e de cardeais, algo pouco usual naquela época", comenta Barros.

- Este texto foi publicado originalmente em https://www.bbc.com/portuguese/curiosidades-62434627

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